Qual esquerda sairá por cima no Recife?


Onde os principais candidatos do primeiro turno receberam seus votos e o que esperar para domingo
POR JOÃO COSTA • 26/11/2020

Muito mais do que uma briga de primos ou uma disputa interna à família Arraes, a corrida no Recife é um choque de distintas visões de esquerda. Filho do ex-governador Eduardo Campos e aliado do atual prefeito Geraldo Júlio (PSB), João Campos representa a continuidade e o partido que governa o estado. Já Marília Arraes, que deixou o PSB devido a desentendimentos com sua direção, encontrou no PT o espaço para se colocar como uma alternativa à esquerda da situação.

Para entender quais eleitores se atraem mais pelas posturas distintas, o Pindograma gerou os mapas de votação por seção eleitoral dos principais candidatos do primeiro turno recifense.

Em primeiro lugar com 29,13% dos votos, João Campos teve forte desempenho em regiões do centro do Recife como Recife Antigo, Santo Amaro e Paissandu, chegando a 40% dos votos nessas regiões. Campos também teve um bom desempenho em bairros periféricos, tanto no Norte quanto no Sul da cidade. Chamam a atenção, porém, os vazios de João em bairros nobres da Zona Norte e na praia de Boa Viagem, onde o candidato recebeu 10% dos votos ou menos.

Na eleição de 2016, o atual prefeito e partidário de Campos, Geraldo Júlio, teve altíssima votação nestes bairros em seu segundo turno contra outro petista, João Paulo. Para vencer o segundo turno este ano, o socialista terá de apostar em uma virada parecida.

Rival de Campos no segundo turno, Marília Arraes (PT) recebeu 27,9% dos votos válidos no primeiro turno. Os maiores focos de votação da petista foram em bairros de classe média próximos a universidades, como o entorno da Universidade Federal de Pernambuco e bairros centrais como Soledade e Boa Vista, onde Marília chegou a ter 35% dos votos. Além disso, a candidata também teve uma votação expressiva — em torno de 20% — em bairros de maior renda, como o Espinheiro e Casa Forte, indicando que eleitores de esquerda de alta renda a preferem. Diferente de seu primo, há poucas áreas da cidade onde Marília recebeu menos que 15% dos votos.

Essa distribuição por toda a cidade pode ser chave em uma vitória no próximo domingo. Caso Marília consiga manter a votação expressiva em bairros de maior renda por toda a cidade, seu oponente terá dificuldade em alcançá-la nas urnas — mesmo que ele mantenha seu apoio nas periferias.

Em terceiro lugar da eleição ficou Mendonça Filho (DEM), com 25,1% dos votos válidos. Como em eleições anteriores, foi em bairros de maior renda da cidade, tanto ao longo da orla quanto na Zona Norte, que o ex-governador teve votação expressiva. Chegou a 50% dos votos em alguns locais de votação.

O apoio de Mendoncinha poderia significar a vitória para um dos candidatos do segundo turno, mas o político escolheu não tomar lados na disputa entre os candidatos de esquerda. Sendo assim, os votos do ex-ministro de Temer devem se fragmentar no segundo turno entre os dois candidatos e a anulação. Na eleição de 2018, os mesmos bairros deram alta votação a Jair Bolsonaro (então no PSL, hoje sem partido), demonstrando o antipetismo dos eleitores. No entanto, a nova tentativa de surfar a onda do bolsonarismo novamente não lhe rendeu frutos.

A candidata que recebeu o aval do presidente no primeiro turno foi Delegada Patrícia (Podemos). A delegada — novata na política e cariocachegou a ameaçar a posição de Marília e Mendoncinha, mas terminou em quarto lugar com 14,40% dos votos. Apesar do flerte com o bolsonarismo, a Delegada recebeu menos votos em regiões nobres que nas periferias da cidade. Bairros como o Ibura e o Cohab na Zona Sul tiveram locais de votação com 20% da votação para a candidata.

Fora do segundo turno, a candidata decidiu não fazer campanha para nenhum dos dois primos no segundo turno. Porém, a liderança do Podemos em Pernambuco decidiu apoiar a chapa da petista Marília Arraes para fazer oposição ao PSB. Os eleitores de Patricia podem ser decisivos no segundo turno, mas terão de escolher entre seguir o seu partido e fazer voto útil contra a liderança do PSB ou apoiar o partido da situação contra o PT.

Os candidatos

As diferenças entre os estilos políticos dos primos transparecem nos programas de governo e nos aliados de cada um. Campos tem uma vice do PDT, mas na sua coligação não faltam legendas do Centrão como MDB, PSD, Republicanos e PP. Além disso, a “Frente Popular do Recife” não contém em seu programa de governo a palavra povo sequer uma vez. O documento soa tecnocrático, focado em apresentar políticas públicas e não em convencer eleitores de um projeto político. Não há menção ao governador e atual prefeito, aliados impopulares de João.

O programa do socialista contrasta com o apelativo programa de Marília, cuja coligação inclui o PSOL do vice João Arnaldo, além dos nanicos PMB e PTC. O programa — com corações vermelhos de quebra de seção — fala em “aprofundar a democracia” e “participação popular”. O texto também dedica duas páginas (de dez) para os “desafios da conjuntura”, onde se discute de tudo: desmatamento, “políticas genocidas do governo [federal] atual”, a soberania nacional e os governos Lula e Dilma, deixando o Recife para os últimos parágrafos.

As propostas dos candidatos parecem ter ficado em segundo plano na cobertura de debates, mas os programas ajudam a lançar alguma luz sobre as diferenças entre os dois. Campos dedica uma seção para propor incentivos ao empreendedorismo e o desenvolvimento da economia enquanto outra foca na modernização da gestão pública. Já Arraes tem uma seção diminuta sobre a economia, mas enfatiza a importância de reestruturar o espaço urbano e facilitar o acesso da população a opções de cultura, lazer e educação.

Essas diferenças não se limitam às legendas dos candidatos; o segundo turno levou a disputas internas em diferentes partidos de esquerda, com políticos contrariando lideranças partidárias e rejeitando alianças eleitorais. A direita recifense também ficou em saia justa, pois a alternativa ao PSB é o PT, partido também rejeitado por muitos. A esquerda fragmentada e o apoio de algumas lideranças de direita parecem ter favorecido Marília, que atualmente lidera as pesquisas de intenção de voto, de acordo com nosso agregador de pesquisas.


Dados utilizados na matéria: Locais de votação (Pindograma); Resultados por Seções Eleitorais (Tribunal Superior Eleitoral).

Contribuiu com dados: Daniel Ferreira.

Créditos da imagem: Guilherme Jofili/Flickr, Arthur de Souza/Divulgação, Ricardo Labastier/Divulgação.

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João Costa é repórter do Pindograma.

Qual esquerda sairá por cima no Recife?

Onde os principais candidatos do primeiro turno receberam seus votos e o que esperar para domingo

POR JOÃO COSTA

26/11/2020

Muito mais do que uma briga de primos ou uma disputa interna à família Arraes, a corrida no Recife é um choque de distintas visões de esquerda. Filho do ex-governador Eduardo Campos e aliado do atual prefeito Geraldo Júlio (PSB), João Campos representa a continuidade e o partido que governa o estado. Já Marília Arraes, que deixou o PSB devido a desentendimentos com sua direção, encontrou no PT o espaço para se colocar como uma alternativa à esquerda da situação.

Para entender quais eleitores se atraem mais pelas posturas distintas, o Pindograma gerou os mapas de votação por seção eleitoral dos principais candidatos do primeiro turno recifense.

Em primeiro lugar com 29,13% dos votos, João Campos teve forte desempenho em regiões do centro do Recife como Recife Antigo, Santo Amaro e Paissandu, chegando a 40% dos votos nessas regiões. Campos também teve um bom desempenho em bairros periféricos, tanto no Norte quanto no Sul da cidade. Chamam a atenção, porém, os vazios de João em bairros nobres da Zona Norte e na praia de Boa Viagem, onde o candidato recebeu 10% dos votos ou menos.

Na eleição de 2016, o atual prefeito e partidário de Campos, Geraldo Júlio, teve altíssima votação nestes bairros em seu segundo turno contra outro petista, João Paulo. Para vencer o segundo turno este ano, o socialista terá de apostar em uma virada parecida.

Rival de Campos no segundo turno, Marília Arraes (PT) recebeu 27,9% dos votos válidos no primeiro turno. Os maiores focos de votação da petista foram em bairros de classe média próximos a universidades, como o entorno da Universidade Federal de Pernambuco e bairros centrais como Soledade e Boa Vista, onde Marília chegou a ter 35% dos votos. Além disso, a candidata também teve uma votação expressiva — em torno de 20% — em bairros de maior renda, como o Espinheiro e Casa Forte, indicando que eleitores de esquerda de alta renda a preferem. Diferente de seu primo, há poucas áreas da cidade onde Marília recebeu menos que 15% dos votos.

Essa distribuição por toda a cidade pode ser chave em uma vitória no próximo domingo. Caso Marília consiga manter a votação expressiva em bairros de maior renda por toda a cidade, seu oponente terá dificuldade em alcançá-la nas urnas — mesmo que ele mantenha seu apoio nas periferias.

Em terceiro lugar da eleição ficou Mendonça Filho (DEM), com 25,1% dos votos válidos. Como em eleições anteriores, foi em bairros de maior renda da cidade, tanto ao longo da orla quanto na Zona Norte, que o ex-governador teve votação expressiva. Chegou a 50% dos votos em alguns locais de votação.

O apoio de Mendoncinha poderia significar a vitória para um dos candidatos do segundo turno, mas o político escolheu não tomar lados na disputa entre os candidatos de esquerda. Sendo assim, os votos do ex-ministro de Temer devem se fragmentar no segundo turno entre os dois candidatos e a anulação. Na eleição de 2018, os mesmos bairros deram alta votação a Jair Bolsonaro (então no PSL, hoje sem partido), demonstrando o antipetismo dos eleitores. No entanto, a nova tentativa de surfar a onda do bolsonarismo novamente não lhe rendeu frutos.

A candidata que recebeu o aval do presidente no primeiro turno foi Delegada Patrícia (Podemos). A delegada — novata na política e cariocachegou a ameaçar a posição de Marília e Mendoncinha, mas terminou em quarto lugar com 14,40% dos votos. Apesar do flerte com o bolsonarismo, a Delegada recebeu menos votos em regiões nobres que nas periferias da cidade. Bairros como o Ibura e o Cohab na Zona Sul tiveram locais de votação com 20% da votação para a candidata.

Fora do segundo turno, a candidata decidiu não fazer campanha para nenhum dos dois primos no segundo turno. Porém, a liderança do Podemos em Pernambuco decidiu apoiar a chapa da petista Marília Arraes para fazer oposição ao PSB. Os eleitores de Patricia podem ser decisivos no segundo turno, mas terão de escolher entre seguir o seu partido e fazer voto útil contra a liderança do PSB ou apoiar o partido da situação contra o PT.

Os candidatos

As diferenças entre os estilos políticos dos primos transparecem nos programas de governo e nos aliados de cada um. Campos tem uma vice do PDT, mas na sua coligação não faltam legendas do Centrão como MDB, PSD, Republicanos e PP. Além disso, a “Frente Popular do Recife” não contém em seu programa de governo a palavra povo sequer uma vez. O documento soa tecnocrático, focado em apresentar políticas públicas e não em convencer eleitores de um projeto político. Não há menção ao governador e atual prefeito, aliados impopulares de João.

O programa do socialista contrasta com o apelativo programa de Marília, cuja coligação inclui o PSOL do vice João Arnaldo, além dos nanicos PMB e PTC. O programa — com corações vermelhos de quebra de seção — fala em “aprofundar a democracia” e “participação popular”. O texto também dedica duas páginas (de dez) para os “desafios da conjuntura”, onde se discute de tudo: desmatamento, “políticas genocidas do governo [federal] atual”, a soberania nacional e os governos Lula e Dilma, deixando o Recife para os últimos parágrafos.

As propostas dos candidatos parecem ter ficado em segundo plano na cobertura de debates, mas os programas ajudam a lançar alguma luz sobre as diferenças entre os dois. Campos dedica uma seção para propor incentivos ao empreendedorismo e o desenvolvimento da economia enquanto outra foca na modernização da gestão pública. Já Arraes tem uma seção diminuta sobre a economia, mas enfatiza a importância de reestruturar o espaço urbano e facilitar o acesso da população a opções de cultura, lazer e educação.

Essas diferenças não se limitam às legendas dos candidatos; o segundo turno levou a disputas internas em diferentes partidos de esquerda, com políticos contrariando lideranças partidárias e rejeitando alianças eleitorais. A direita recifense também ficou em saia justa, pois a alternativa ao PSB é o PT, partido também rejeitado por muitos. A esquerda fragmentada e o apoio de algumas lideranças de direita parecem ter favorecido Marília, que atualmente lidera as pesquisas de intenção de voto, de acordo com nosso agregador de pesquisas.


Dados utilizados na matéria: Locais de votação (Pindograma); Resultados por Seções Eleitorais (Tribunal Superior Eleitoral).

Contribuiu com dados: Daniel Ferreira.

Créditos da imagem: Guilherme Jofili/Flickr, Arthur de Souza/Divulgação, Ricardo Labastier/Divulgação.

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João Costa

é repórter do Pindograma.

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