A eleição de Fortaleza em mapas


Capitão Wagner, candidato de Bolsonaro, tirou os bairros mais ricos das mãos do PDT
POR FRANCISCO RICCI • 28/11/2020

Após um primeiro turno contestado, José Sarto (PDT) foi o mais votado e agora enfrentará Capitão Wagner (PROS) no segundo turno pela prefeitura de Fortaleza. Os dois candidatos representam duas visões diferentes sobre os problemas locais, assim como antagonismos no âmbito da política nacional. Com base nos mapas abaixo, analisamos as votações no primeiro turno e as bases eleitorais destes candidatos no passado para entender melhor a eleição deste domingo.

Com 35,72% dos votos, Sarto obteve uma votação espalhada uniformemente por toda Fortaleza, com alguma concentração nos bairros de classe média e baixa no entorno do aeroporto. O pedetista falhou, porém, ao angariar o apoio das periferias no Oeste da cidade.

José Sarto busca reconstruir a coalizão que elegeu seu antecessor, Roberto Cláudio (PDT), em 2016. Naquele ano, o voto pedetista foi concentrado principalmente no centro e nos bairros ricos de Fortaleza. Mas em 2020, Sarto não conseguiu repetir um apoio de tamanha escala nessas regiões.

A 2 dias da eleição, Sarto segue favorito e pesquisas indicam sua vitória. Além da vantagem de Sarto no primeiro turno, a terceira colocada, Luizianne Lins (PT), também declarou apoio ao pedetista.

Já o rival de Sarto, Capitão Wagner, teve apoio concentrado no Centro e nos bairros ricos de Fortaleza. Essas regiões, como a praia de Iracema e o bairro Meireles, haviam votado no PDT de Roberto Cláudio em eleições anteriores. Wagner também tem força em uma região onde o PT e o PDT sempre foram fracos historicamente: os bairros periféricos no Oeste da cidade.

Os candidatos

Para chegar ao segundo turno, Sarto — o candidato de Ciro Gomes — batalhou com Luizianne Lins para parecer mais próximo de Camilo Santana (PT), o atual governador do Ceará, que é extremamente popular em Fortaleza. Santana se manteve neutro na disputa, para não contrariar o PT nem os irmãos Ferreira Gomes. Já no segundo turno, Sarto conseguiu o apoio do governador. O candidato defende a continuidade do projeto de poder de esquerda encabeçado por seu partido na cidade.

Camilo Santana abraça José Sarto em foto divulgada por Ciro Gomes (Fonte: Divulgação/Facebook)

Em sua campanha, Sarto apela para o lado positivo de gestões anteriores. Em uma entrevista recente, o candidato parabenizou a gestão atual pelo controle da pandemia, citando a redução do número de casos de coronavírus. Citou também os 105 mil alunos matriculados em tempo integral, prometendo seguir com o trabalho bem avaliado na área da educação.

Enquanto isso, o padrinho político de Wagner é o presidente Jair Bolsonaro. No entanto, o candidato tem buscado se descolar do presidente, já que a sua rejeição é alta na capital cearense. O nome de Bolsonaro não aparece nas redes sociais ou nos programas eleitorais do candidato.

Outra parte do esforço de Wagner para diminuir sua imagem de extremista de direita é a tentativa de se distanciar dos motins de policiais militares em Fortaleza. Ex-capitão da PM, Wagner liderou o motim de 2011 e ganhou projeção estadual com a paralisação. Em março deste ano, houve outro motim da PM no estado, e Wagner apresentou um projeto à Câmara dos Deputados para anistiar os policiais amotinados.

Em entrevista à Rede Brasil Atual, a professora de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará Monalisa Torres afirmou que “diferentemente de 2012, dessa vez o motim foi muito desgastante para as lideranças que participaram, porque foi muito mais violento. Então ele tenta se desvincular desse evento.” No meio do caos, o ex-governador do Ceará Cid Gomes foi baleado quando usava uma retroescavadeira para tentar acabar com um motim em 2020.

Wagner não fica, porém, só na defensiva. Troca farpas com seu adversário e ataca Sarto por ser o candidato da situação. Em uma mensagem de campanha, o candidato do PROS se dirige a Sarto como “o candidato dos Ferreira Gomes” e faz críticas ao controle do grupo sobre a política local e aponta também para o fato de o Ceará ser um dos estados mais violentos do país.

Com o triunfo de Sarto contra Luizianne no primeiro turno, o PDT demonstrou a sua hegemonia sobre o voto da esquerda em Fortaleza. Enquanto isso, seguindo o padrão de outros candidatos da direita, Capitão Wagner pena para mostrar que é mais do que o candidato do bolsonarismo.


Dados utilizados na matéria: Locais de Votação (Pindograma); Votação por Seção Eleitoral (Tribunal Superior Eleitoral).

Contribuiu com dados: Daniel Ferreira.

Créditos da imagem: Otávio Nogueira/Wikimedia Commons, Daniel Aderaldo/Câmara dos Deputados.

Para reproduzir os números citados, o código e os dados podem ser encontrados aqui.

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foto do autor

Francisco Ricci é fundador e repórter do Pindograma.

A eleição de Fortaleza em mapas

Capitão Wagner, candidato de Bolsonaro, tirou os bairros mais ricos das mãos do PDT

POR FRANCISCO RICCI

28/11/2020

Após um primeiro turno contestado, José Sarto (PDT) foi o mais votado e agora enfrentará Capitão Wagner (PROS) no segundo turno pela prefeitura de Fortaleza. Os dois candidatos representam duas visões diferentes sobre os problemas locais, assim como antagonismos no âmbito da política nacional. Com base nos mapas abaixo, analisamos as votações no primeiro turno e as bases eleitorais destes candidatos no passado para entender melhor a eleição deste domingo.

Com 35,72% dos votos, Sarto obteve uma votação espalhada uniformemente por toda Fortaleza, com alguma concentração nos bairros de classe média e baixa no entorno do aeroporto. O pedetista falhou, porém, ao angariar o apoio das periferias no Oeste da cidade.

José Sarto busca reconstruir a coalizão que elegeu seu antecessor, Roberto Cláudio (PDT), em 2016. Naquele ano, o voto pedetista foi concentrado principalmente no centro e nos bairros ricos de Fortaleza. Mas em 2020, Sarto não conseguiu repetir um apoio de tamanha escala nessas regiões.

A 2 dias da eleição, Sarto segue favorito e pesquisas indicam sua vitória. Além da vantagem de Sarto no primeiro turno, a terceira colocada, Luizianne Lins (PT), também declarou apoio ao pedetista.

Já o rival de Sarto, Capitão Wagner, teve apoio concentrado no Centro e nos bairros ricos de Fortaleza. Essas regiões, como a praia de Iracema e o bairro Meireles, haviam votado no PDT de Roberto Cláudio em eleições anteriores. Wagner também tem força em uma região onde o PT e o PDT sempre foram fracos historicamente: os bairros periféricos no Oeste da cidade.

Os candidatos

Para chegar ao segundo turno, Sarto — o candidato de Ciro Gomes — batalhou com Luizianne Lins para parecer mais próximo de Camilo Santana (PT), o atual governador do Ceará, que é extremamente popular em Fortaleza. Santana se manteve neutro na disputa, para não contrariar o PT nem os irmãos Ferreira Gomes. Já no segundo turno, Sarto conseguiu o apoio do governador. O candidato defende a continuidade do projeto de poder de esquerda encabeçado por seu partido na cidade.

Camilo Santana abraça José Sarto em foto divulgada por Ciro Gomes (Fonte: Divulgação/Facebook)

Em sua campanha, Sarto apela para o lado positivo de gestões anteriores. Em uma entrevista recente, o candidato parabenizou a gestão atual pelo controle da pandemia, citando a redução do número de casos de coronavírus. Citou também os 105 mil alunos matriculados em tempo integral, prometendo seguir com o trabalho bem avaliado na área da educação.

Enquanto isso, o padrinho político de Wagner é o presidente Jair Bolsonaro. No entanto, o candidato tem buscado se descolar do presidente, já que a sua rejeição é alta na capital cearense. O nome de Bolsonaro não aparece nas redes sociais ou nos programas eleitorais do candidato.

Outra parte do esforço de Wagner para diminuir sua imagem de extremista de direita é a tentativa de se distanciar dos motins de policiais militares em Fortaleza. Ex-capitão da PM, Wagner liderou o motim de 2011 e ganhou projeção estadual com a paralisação. Em março deste ano, houve outro motim da PM no estado, e Wagner apresentou um projeto à Câmara dos Deputados para anistiar os policiais amotinados.

Em entrevista à Rede Brasil Atual, a professora de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará Monalisa Torres afirmou que “diferentemente de 2012, dessa vez o motim foi muito desgastante para as lideranças que participaram, porque foi muito mais violento. Então ele tenta se desvincular desse evento.” No meio do caos, o ex-governador do Ceará Cid Gomes foi baleado quando usava uma retroescavadeira para tentar acabar com um motim em 2020.

Wagner não fica, porém, só na defensiva. Troca farpas com seu adversário e ataca Sarto por ser o candidato da situação. Em uma mensagem de campanha, o candidato do PROS se dirige a Sarto como “o candidato dos Ferreira Gomes” e faz críticas ao controle do grupo sobre a política local e aponta também para o fato de o Ceará ser um dos estados mais violentos do país.

Com o triunfo de Sarto contra Luizianne no primeiro turno, o PDT demonstrou a sua hegemonia sobre o voto da esquerda em Fortaleza. Enquanto isso, seguindo o padrão de outros candidatos da direita, Capitão Wagner pena para mostrar que é mais do que o candidato do bolsonarismo.


Dados utilizados na matéria: Locais de Votação (Pindograma); Votação por Seção Eleitoral (Tribunal Superior Eleitoral).

Contribuiu com dados: Daniel Ferreira.

Créditos da imagem: Otávio Nogueira/Wikimedia Commons, Daniel Aderaldo/Câmara dos Deputados.

Para reproduzir os números citados, o código e os dados podem ser encontrados aqui.

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Francisco Ricci

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