“Alô? Com quem eu falo?” Uma versão acústica de Ninguém Explica Deus toca ao fundo da chamada. “Eu poderia falar com um pastor da igreja? Estamos tentando conversar com líderes locais para entender o voto nas favelas da região”. Uma voz veio ao telefone e, finalmente, o pastor de uma igreja metodista havia se disposto a conversar com a reportagem.

“Mas as perguntas são sobre política?”

“Sim”.

E o telefone desliga.


Hoje, mais de um quinto dos cariocas moram em uma das mais de mil favelas da cidade. Essas comunidades são parte central da cultura e identidade do Brasil, mas o seu comportamento político ainda é pouco explorado. Como, afinal, votam as favelas do Rio de Janeiro?

Para responder à pergunta, o Pindograma construiu um mapa detalhado de como elas votam. Usando bases do Governo Federal e o Google Maps, a reportagem localizou cada uma das 15.861 seções eleitorais do Rio de Janeiro. Então, cruzamos essas seções com as áreas das favelas com mais de mil pessoas, segundo dados da Prefeitura do Rio, e analisamos os resultados das últimas eleições presidenciais:

Bolsonaro obteve maioria em quase todas as favelas do Rio com mais de mil residentes – o atual presidente foi vitorioso em 205 comunidades, somando 1.248.212 moradores. Enquanto isso, Haddad venceu em somente 11 favelas, somando 176.399 moradores.

No entanto, essa transição do PT para Bolsonaro não ocorreu de maneira uniforme pela cidade. Nas favelas da região central, a porcentagem de votos para o candidato do PT caiu 23%. Na Zona Norte, essa queda foi de 34%, e na Zona Oeste, de 41%. Foi somente nas favelas da Zona Sul que o voto no PT cresceu entre 2014 e 2018.

Especialistas que estudam o voto do Rio sugerem três causas para explicar essa diferença: o voto evangélico, a presença de organizações comunitárias de esquerda, e a atuação de milícias.

I) O Voto Evangélico

A importância do voto evangélico para a eleição de Jair Bolsonaro não é novidade. Segundo pesquisa Datafolha realizada a três dias do segundo turno em 2018, 56% dos brasileiros declararam voto no atual presidente; já entre os evangélicos, esse percentual foi de 69%.

O voto evangélico também explica boa parte da diferença no comportamento eleitoral entre favelas da cidade. Na Zona Oeste, os evangélicos representam 28% da população, enquanto a média da Zona Norte é de 21%, e no Centro, de 16%. Santa Cruz – bairro no extremo oeste da cidade – foi a primeira região da cidade a ter mais evangélicos que católicos, segundo o Censo de 2010.

O pastor Adelson, da Assembleia de Deus de Santa Cruz, falou ao Pindograma sobre o comportamento eleitoral dos fiéis. “Depois da crise econômica, não tem como fugir do desemprego. A população aqui foi mais afetada. A vida piorou. E quem oferece cesta básica, ajuda com moradia, emprego? A igreja. Sempre juntamos uma ajuda para um irmão que precisa. Antes, os membros da congregação, alguns apoiavam o governo do PT, outros não. Mas quase todo mundo mudou de ideia. Cansaram da roubalheira”.

Os dados confirmam as impressões do pastor. As favelas em áreas mais evangélicas da cidade não demonstraram forte oposição ao PT nas eleições de 2014. No entanto, apoiaram Bolsonaro com força em 2018: